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quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O segundo gole.

Eu sei. Ou então deveria saber. Não era apenas uma questão de saber ou querer, eu tenho que saber do que realmente tinha acontecido.
Já acordei e não era tarde. Eram apenas 11:00 da manhã e eu estava completamente exausta. Uma noite tremenda eu tive. Noite de mudanças. Mudanças psicológicas. Não no sentido de se mudar de um bairro, estado ou país, mas mudar de pensamento, de atitudes, de palavras até, mas nunca dos sonhos. Me levantei e fui tomar um banho. Nada melhor um banho depois de uma ressaca. Eu tinha planos pra hoje, quer dizer, todos os dias tenho planos e hoje não seria diferente. Peguei a roupa que iria vestir após o banho e minha roupa íntima. Fui para o banho exatamente ás 11:20 e por mais que pensei que havia demorado, saí às 11:30. 10 minutos de banho. É lógico. Nunca pensei que pudesse ser tão rápida.
Me vestir e comi algo. Olhei para o relógio 11:45: "Como o tempo voa", pensei. Comi o mais depressa possível. Tinha um compromisso. Só não me lembrava qual era. Ah, claro! Amizades. Tenho que ver minha amiga que está no hospit.. HOSPITAL? O QUE ACONTECEU? E aí veio novamente a dor de cabeça, a mesma de ontem, a mesma de hoje.
Fui pegar minhas chaves na escrivaninha e por acaso vi uma foto, era da minha mãe. Ela estava lá, magnificamente linda me segurando quando eu apenas sabia piscar os olhos, sorrir e viver, nada de compromissos, de dores de cabeça e más lembranças. Me toquei que tinha que me apressar e segui para o hospital ver a Sara.
O trânsito, como sempre,  me deixando estressada. Liguei o rádio, com meu pen driver já posto, tudo ficava mais fácil. E sim, a música não sai de mim. Aonde eu vou tenho que ir com ela, se não, aquele passeio não servirá de nada.
Cheguei no hospital, falei com a atendente do local e segui para o quarto da minha amiga. Abri a porta e lá estava ela, deitada e sorrindo ouvindo The Beatles. Sorri sem mostrar os dentes e ela fez um sinal que eu chegasse mais perto.
Sentei perto da cama do hospital (não gosto de hospitais, é um dos piores lugares para uma pessoa como eu poder ir) e ela segurou minha mão.
- Minha amiga... Lembra do que aconteceu ontem? - Me perguntou. Sua voz era falha. Aquele timbre de voz de que você fez algo muito feio e não se lembra. Bem, respirei e tentei achar alguma resposta que sirva para aquela pergunta.
- Não.. - Boa resposta, Clara. Breve e perfeita resposta. Eu e meus pensamentos positivos.
- Bem, depois da nossa festa em comemoração aos 20 anos da nossa dança, do nosso amor pela dança, fomos beber um pouco. É claro que pessoas com 17 anos como nós não rejeitaria um copo de bebida pela felicidade que estávamos. Mas você, Clara, mudou completamente depois do segundo gole. Foi como se alguém tivesse dito pra você "É agora, Clara, seja rebelde, faça justiça, seja você" E mesmo que aquilo não fora você, você fez. Clara, você chegou perto da Sammy e simplesmente jogou a garrafa de cerveja na cabeça dela, seus olhos estavam vermelhos, sua boca esbanjava um sorriso... um sorriso horrível, um sorriso que não transmitia felicidade, e sim medo, de verdade? eu tive medo de você. E aí, os copos que haviam em cima da mesa foram tudo jogados contra ela...
- Outras pessoas que jogaram? - Perguntei sem voz
- Não, Clara, você fez tudo. Eu tentei te acalmar, mas nada adiantava. Sua mãe chegou na festa e segurou seu braço, mas você a jogou com toda força contra o sofá! O que você tinha? - Fiquei em silêncio por cinco minutos de boquiaberta, sem saber o que falar.
- Eu não sei... Talvez seja porque a Sammy tenha tomado o meu lugar de dançarina principal na apresentação. - Nesse momento me veio o que aconteceu na mente, e aí resolvi contar tudo - Eu sempre queria ser como a professora Belle, e ela sempre me ensinou bons modos, mas a Sammy... Ela sempre queria estar no meu lugar, tinha inveja de mim, Sara! Ela tinha inveja de mim! Ela já rasgou minha roupa antes da uma apresentação, e eu tive que ir com outra, mesmo sendo proibido, eu queria dançar, eu tinha que dançar. Ela já roubou o Matt de mim, o meu namorado, Sara, ela o roubou de mim! Fez com que minha mãe a elogiasse... MINHA MÃE? onde está minha mãe? - Perguntei, enfim, ainda mais preocupada.
- Ela está na casa da sua avó, Clara. Ela está bem, já veio me visitar. Disse que se você chegasse aqui era pra você ir na casa da sua avó visitá-la. Mas eu vou te dar um conselho antes de ir lá...
Seja você, Clara. Pare de buscar a perfeição nos lugares onde a maldade existe. Busque dentro de você. Não corra os olhos pra onde a luz não ilumine seus passos. E nunca tome o segundo gole, se você não tiver a certeza de que o primeiro te deixou satisfeita.


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